Onde a gente escolheu começar
A ARXS está construindo software para mercados enormes que a tecnologia ainda não entendeu direito. Este é o primeiro registro de um diário sobre o que acontece daqui para frente.
Abrir uma empresa é decidir, sem provas suficientes, que existe alguma coisa onde outras pessoas ainda não viram muito.
Depois vem a parte difícil.
Existe um intervalo entre o dia em que uma ideia parece óbvia e o dia em que alguém decide pagar por ela. Nesse intervalo, a ideia encontra o mercado, o produto encontra gente de verdade e quase todas as certezas do começo são colocadas à prova.
A ARXS está exatamente aí.
Ainda é cedo para contar uma história de sucesso. E talvez seja justamente por isso que este seja o momento certo para começar a contar a história.
Este blog nasce como um diário dessa travessia.
Não para registrar depois o que deu certo.
Para registrar enquanto a gente ainda não sabe.
Começamos por dois lugares
Um deles tem um caderno atrás do balcão.
Nele está anotado quem levou fiado. O dono sabe de cor os nomes — dificilmente esquece uma pessoa. O que ele quase nunca sabe é quanto.
São valores pequenos, acumulados ao longo do mês, anotados entre uma venda e outra.
O problema nunca foi anotar o fiado.
É esquecer dele.
E fiado esquecido não é uma linha faltando num relatório. É dinheiro que já saiu, mercadoria que já foi embora e um valor que não aparece quando chega a hora de decidir se dá para repor o estoque.
O outro lugar é um pátio cheio de carros.
Uma revenda tem um veículo parado há dois meses. A poucos quilômetros dali, outra está procurando exatamente aquele carro.
Esse mercado movimenta dinheiro todos os dias e boa parte dele acontece no WhatsApp.
Foto.
Preço.
"Ainda tá disponível?"
E, principalmente: quem está do outro lado?
São dois mercados muito diferentes.
Mas encontramos algo parecido nos dois.
O trabalho existe. O negócio funciona. As pessoas desenvolveram maneiras próprias de resolver seus problemas.
O software é que ainda ocupa pouco espaço nessa história.
Não porque não exista tecnologia para esses mercados. Existe.
Mas boa parte dela começa pedindo que as pessoas aprendam primeiro como o sistema funciona.
A gente decidiu tentar o caminho contrário.
Entender como elas trabalham e fazer o sistema aprender isso.
É daí que vem a ARXS
Quando começamos, sabíamos que provavelmente não construiríamos um único produto.
Os problemas que nos interessavam estavam em mercados diferentes, com pessoas diferentes e linguagens diferentes.
Precisávamos de uma casa para coisas que não precisavam parecer iguais.
Chegamos a Arx, cidadela em latim.
Gostamos menos da imagem de uma fortaleza do que da ideia de uma construção feita para guardar alguma coisa dentro.
O S veio com o resto da ideia.
A ARXS seria a casa. Os produtos poderiam pertencer a mundos completamente diferentes.
Isso acabou virando uma decisão importante.
Um produto feito para quem vende no comércio de bairro não precisa falar como um produto feito para quem negocia veículos. Não precisa ter a mesma cor. Nem a mesma personalidade.
Talvez nem deva parecer que vieram da mesma empresa.
Porque a marca que precisa fazer sentido para quem está trabalhando é a do produto.
A ARXS fica atrás.
Uma escolha que fizemos cedo
Também apareceu outro caminho.
Usar nossa experiência para vender projetos de tecnologia enquanto construíamos os produtos.
Era uma possibilidade real. Talvez até uma maneira mais rápida de gerar receita.
A conta fazia sentido.
A empresa, menos.
Porque um projeto começa quando alguém chega e diz o que precisa construir.
O que nos trouxe até aqui começa antes:
o que está acontecendo num mercado que ainda não foi bem resolvido?
Uma pergunta pode levar a um projeto.
A outra pode levar a um produto.
Escolhemos a segunda.
Isso não significa que nunca prestaremos um serviço. Significa apenas que decidimos cedo qual empresa estamos tentando construir.
Agora existem dois produtos
O primeiro começa pela coisa mais natural que existe numa venda: falar.
Em vez de virar um sistema cheio de campos, ele escuta.
O comerciante aperta um botão e diz:
"Paulo levou dois quilos de arroz fiado."
O sistema faz o resto.
Ele entra em beta fechado com comerciantes ainda este mês.
O segundo tenta tornar mais claro quem é quem no mercado de repasse de veículos e por onde um carro passou antes de chegar a uma negociação.
Está construído e entrando em preparação para implantação.
São produtos diferentes.
Mas existe uma decisão em comum entre eles.
O mundo real vem antes do sistema.
Não queremos ensinar um comerciante a registrar uma venda.
Nem ensinar alguém que negocia carros a negociar carros.
Queremos entender suficientemente bem o trabalho para que a tecnologia consiga entrar nele sem ficar no caminho.
Por que começar a escrever agora
Seria mais confortável começar este blog daqui a alguns anos.
Com números maiores, decisões justificadas pelo resultado e uma história organizada retrospectivamente.
Mas aí perderíamos justamente a parte que nos interessa.
As dúvidas.
As apostas.
As coisas que pareciam certas e não eram.
As decisões pequenas que acabaram importando.
O que um comerciante fez com o produto que não estava no fluxo.
O que quebrou quando uma integração encontrou o mundo real.
O que uma mudança de regulação alterou num mercado.
O que medimos.
O que tivemos que abandonar.
É sobre isso que vamos escrever aqui.
Há apenas uma regra: escreve-se a partir do que está registrado.
Se algo foi medido, mostramos o que foi medido.
Se foi uma decisão, contamos por que decidimos.
Se é uma hipótese, chamamos de hipótese.
E, quando estivermos errados, o registro anterior continuará aqui.
A ARXS ainda está no começo.
Daqui a alguns anos talvez seja fácil olhar para trás e explicar por que algumas dessas escolhas deram certo.
Por enquanto, a gente prefere registrar enquanto ainda não sabe.